sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Era uma vez...


... a invisibilidade.

Das luzes do morro – das casas e dos fuzis. Contada assim, feito um conto antigo, que ninguém consegue dizer onde começou. Não que nunca tenham tentado. As alegorias do subdesenvolvimento cinema-novistas já lançavam as lentes sobre os condenados da terra. Em forma de manifesto, portanto de movimento, estético e ideológico, compartilhavam da tentativa de fazer significar nossa escassez e explicar as origens desta. Para onde foi, entretanto, o povo que faltava?

Morre-nasce nos morros do Cantagalo; vive-morre no asfalto de Ipanema. O já clichê da Cidade Partida”, que se cruza e não se resolve. Não é difícil ver as discrepâncias entre o meio da classe média falida, de recursos e valores, donde abre-se um fosso entre a riqueza material e o cultivo moral; e o meio favela, das subclasses semi-desprovidas de escolha. Mas, chega um ponto em que é muito mais difícil ver as distinções do que as semelhanças entre esses mundos retratados por Breno Silveira (Era uma vez, Brasil, 2008). Retratados, mesmo, com todos os requintes de “realidade” documental de se filmar no lócus da história e abusar das referências de obras como "174" e de seu trabalho com Eduardo Coutinho.

É polêmico, mas não simplista. Aproximar o mundo de conto de fadas (do castelo em ruínas) de Nina e os sonhos solapados como uma bola dividida, de Dé. Este, que cresce com a arma apontada na cabeça, e ainda assim dá-se ao luxo de ser honesto. Aquela, que rodeada de relações superficiais pautadas em corrupção e mediocridade, ousa cruzar a linha, a rua, os portões de ferro. Os mundos se cruzam no tráfico e raves; nos preconceitos mútuos sobre o outro e sobre o si mesmo; nas barreiras que se cria para proteção contra o outro, que restringe pois as possibilidades de encontros; nas relações de dominação, subordinação e humilhação, pelo dinheiro, pelo status, pelo mando, pela ordem; no fechar os olhos e lavar as mãos para a violência do lado de fora, das vidraças e dos barracos...

Mas os mundos são obrigados a se entrecruzar, efetivamente, embaralhando e revelando aproximações, por algo maior que terror, que medo, que ódio, mas para o qual somos igualmente impotentes: o amor. Há de se lembrar que esse é o pano de fundo para o argumento. E por mais que os vitimados por esse sentimento tentem ficar atrás de suas trincheiras historicamente erguidas, não há muito como lutar.

Mas a viabilização do amor é sufocada pelas tensões da vida que corre por fora. Tem gente que vira bandido porque é ruim. Mas tem gente que não – tenta Dé explicar e mesmo entender “escolhas” e constrangimentos que levam a elas, como comenta um atento amigo meu. Dos meninos que crescem jogando bola, esperando a mirada do olheiro do Flamengo e apertam os olhos frente a páginas já escritas, tentando ler velhas e novas histórias. Vendem o que tiver que vender - droga, cachorro-quente, malabares. Questão de escolha?

Já adiantei: a estória não é nova. Muitos guris já foram cantados. Muitos romances entre plebeu e princesa contados. Muitas favelas filmadas. Mas há novos e mesmo tristes contornos, da naturalização e banalização da violência, da morte como solução para a falta desta, de não somente heróis assassinos mas, antes, heróis assassinados. Desculpe o clichê, mas estamos longe de fechar nosso Era uma vez diário com um felizes para sempre. Não há resposta. Não há sequer explicação. E parece que faz algum tempo que nós (o cinema e sabe-se mais quem) deixamos de lado tal pretensão. Ou faz algum tempo que nos deixou de lado a garantia e possibilidade de fornecer explicação.
(Mas, repito: Não menos efetivo, não menos político. Pelo menos no que diz respeito ao cinema...)

8 comentários:

Anônimo disse...

Oi irmã linda. Como vc esta escrevendo bem! Nó, mas confesso que esses textos sociais-democratas-ideológicos são muito pra minha cabeça neo-capitalista kkkkkkk. Brincadeira. Parabéns pelo textos, tomara q o Arthur te puxe na inteligência, simpatia e força de vontade. ah, se eu tiver um blog um dia, com certeza será de futebol-mulher-cerveja-churrasco-F1. Beijos e saudades_Dudu

Isabella M. F. disse...

Querido irmão, obrigada pela força! sua opinião sempre foi e é mto importante pra mim (mesmo vc sendo um neo-capitalista burguês keynesiano...rs). Espero que Arthur de puxe em todo o resto, então!!! em especial, esse coração de ouro! Beijos e obrigada!
saudade sempre.

Diogo Tourino de Sousa disse...

Querida Bella,

Ótimo texto, muito elegante a sua escrita. Sutil a percepção de que o mundo naturaliza "escolhas" como sendo algo aparentemente fácil. Um abraço.

Isabella M. F. disse...

Obrigada, Diogo!!!
A sutileza mesmo dos limites entre o que são escolhas e o que não são me parecem mesmo a marca de "Era uma vez"... e antes, de "nosso tempo"... Beijo.

R@pH@&L disse...

Oi Bebella! To mesmo a fim de ver esse filme, vi o trailer dele, e agora me deparei com essa resenha bacana no seu blog... Pelo trailer, a temática me remeteu à algo meio "rapunzel", conto de fadas, só que adaptado pra realidade carioca, e possivelmente (não vi o final, mas...) com toda a agressividade e inquietação que isso implica!
Eu vi esse trailer antes de assistir, no cinema, ao filme "Pequenas Histórias", do Hélvecio Ratton, já viu? Achei muito bom, pra mim que vou estudar "mineiridade", achei ótimo!
Bjão!

Isabella M. F. disse...

Pois é, Rafa. O filme me surpreendeu. Pq apesar do grande risco de clichês do argumento, há, como vc disse, toda uma inquietação e agressividade de pano de fundo. Ainda não vi Pequenas Histórias, mas quero ver. Obrigada pela dica e pelo comentário. Beijos.

Sandro Santiago disse...

Bella análise essa sua de "Era uma vez...". Tem passagens do seu texto que são realmente muito boas. Parabéns!! Admiro você mais ainda a cada dia que passa. É, não poderia haver um "final feliz" mesmo no filme. É a nova velha história do acirramento, do confronto entre a ordem burguesa instituída e os excluídos impedindo os encontros, ou pior, de um capitalismo cada vez mais perverso , separando os afetos. Mas ainda é possível que a macropolítica perversa do Capital não afete nossas escolhas pessoais e afetivas e sejamos mais felizes. Beijos. Saudade. Sandro.

Isabella M. F. disse...

Sandro, realmente, "Era uma vez" nos deixa aflitos com este acirramento de conflitos e essas impossibilidades colocadas por ordens externas à nossas vontades, mas moldadas tb por elas. Que as micropolíticas dos afetos se façam, então. Beijo e obrigada pelo comentário.